Vade retro
Deus escreve certo por linhas tortas. Tomara que os problemas do Brasil sejam apenas algumas dessas linhas entortadas e que, no final, tudo dê certo! Temos a esperança de que as coisas vão melhorar pois, afinal, Ele também é brasileiro! Meu medo é que esta declaração de nacionalidade por parte da divindade maior, seja apenas uma dica do seu marketeiro particular. Ou seja, não passa de promessa de campanha. Deus é um empresário empreendedor. Aqui na Terra, inicialmente, Ele estabeleceu grandes empresas para administrarem suas idéias. Muçulmanos, cristãos, hindus e outros menos votados criaram grandes redes de atendimento aos necessitados de religião. Estes grandes grupos, baseando-se na livre concorrência, costumam competir agressivamente, muitas vezes indo às vias de fato. Guerra Santa é o que não faltou na história humanidade. Com a cara lavada, qualquer um alega possuir procuração dEle para intermediar o contato com o rebanho de fiéis. Tolice. Sabemos que Deus é muito seletivo nestas escolhas. Afinal, que eu conheça, Ele só delegou poderes a Bill Gates e Roberto Marinho. E, mesmo estes (devem ser as tais das linhas tortas), têm enfrentado dificuldades ultimamente. A Internet, que Gates começou achando que era uma criação de Satã, derrubou a supremacia da Microsoft, ou, pelo menos, sua tranqüilidade na liderança. Já Roberto Marinho, anda No Limite dos nervos com as baixas na audiência e as investidas de Silvio Santos e outros bispos Macedos, típicos agentes do lado negro da Força. A proposta de franquias, adotada por Deus, não deu certo. Recentemente, alguns empresários ousados resolveram se aproveitar da desregulamentação do setor religioso e criar um bom número de cadeias de fastfood para matar a fome de fé do povo. Foi um sucesso. Dá mais dinheiro que criar site na Internet! É incrível (que quer dizer: não é para crer, mas muita gente acredita). No Brasil, o líder nessa área é a Igreja Universal do Reino de Deus. As novas igrejas inovaram a proposta católica, que prometia vida eterna, e passaram a oferecer serviços de grande procura já na vida terrena. Oferecem milagres de todo tipo: curas, fortuna, felicidade, volta do marido etc. Por tudo, seja inflação, desemprego, corrupção, dor nas costas, culpam o demônio, este pobre diabo. É um festival de propaganda enganosa pela tevê que bem merecia uma providência do Procon. As seitas de origem africana possuem um esquema de gestão ainda incipiente e conseguem pouca penetração no mercado de captação financeira pela fé. A Igreja Católica, aqui no Brasil, tal qual uma IBM do setor religioso, deixou-se levar pelo aparente monopólio e não evoluiu. Durante a ditadura militar brasileira, a postura de resistência de alguns padres formaram boa imagem da Igreja. Depois, com o fim da exceção e da tortura institucional, o Vaticano, muito conservador, exigiu uma posição mais voltada para o etéreo e acabou com a Igreja atuante de esquerda. A Igreja Católica ficou sem uma visão de mercado. Suas posturas radicais - por exemplo: contra o aborto e se opondo ao uso da camisinha contra a Aids - causam morte e sofrimento para uma multidão de brasileiros. Com o passar do tempo, a Igreja Católica, se mostra uma empresa sem rumo e vem perdendo consumidores fiéis. Algumas ações da administração atual mostram uma empresa em crise. Há cerca de uma semana, o Vaticano resolveu apelar e declarou, simplesmente, que a Igreja Católica é a única religião verdadeira. A atitude prepotente criou mal estar junto aos outros concorrentes atuando na área religiosa. No Brasil, a Igreja pressionou o governo através de um plebiscito para decidir sobre não pagar a dívida externa. Um processo ingênuo, aparentemente democrático, que poderia, no máximo, conseguir que o Brasil passasse a ser olhado como um país potencialmente inadimplente e os juros internacionais aumentassem para nós. Felizmente, ninguém levou a sério. Mas a Igreja não ficou por aí. Há poucos dias, na matriz em Roma, o Papa Paulo VI rezou junto a uma moça que parecia possuída e conseguiu exorcizar o demônio que estava dentro dela. Que tal? Enquanto escrevo, já vejo as chamas do inferno que se aproximam. Eu, como bom herege, temo que, no mínimo, com este artigo, serei excomungado. Acredito piamente que meu destino é a fogueira. - Ernesto Friedman - envie agora seu comentário sobre este artigo opinião dos leitores sobre o artigo acima ( ver artigo ) 03.02.2003
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